Serra Gaúcha aposta em clones nacionais para fortalecer identidade do vinho brasileiro
Projeto da Embrapa Uva e Vinho desenvolve clones adaptados ao terroir local e reduz dependência de variedades europeias
A Serra Gaúcha está avançando na criação de clones próprios de videiras, em uma estratégia que promete consolidar a identidade do vinho brasileiro e reduzir a dependência de material genético europeu. A iniciativa é liderada pela Embrapa Uva e Vinho, em parceria com o Consevitis-RS, por meio do Projeto Seleclone, que já estuda 135 clones de 59 variedades viníferas, sendo 14 em fase final de validação e dois prestes a serem registrados oficialmente.
O objetivo é desenvolver clones de uvas adaptados ao terroir da Serra Gaúcha, com alta estabilidade produtiva, qualidade enológica e sanidade. A seleção também busca variações genéticas mais bem ajustadas às condições climáticas brasileiras, respondendo à demanda de produtores que historicamente dependem de clones europeus sem validação local.
Segundo dados do SIVIBE (Sistema de Informações da Área de Vinhos e Bebidas) do MAPA, cerca de 2 mil vitivinicultores cultivam uvas Vitis vinifera no Rio Grande do Sul, ocupando aproximadamente 6.500 hectares destinados a vinhos finos. O impacto potencial do Seleclone sobre esse segmento é significativo.
Investimento - Desde o início do projeto, em 2015, a Embrapa já investiu mais de R$ 928 mil, enquanto o Consevitis-RS destinou R$ 52 mil nos últimos dois anos para aquisição de equipamentos e insumos. Para o presidente do instituto, Luciano Rebelatto, a atuação conjunta entre pesquisa e setor produtivo é essencial. "Trabalhar variedades alinhadas com as necessidades do setor é fundamental. Desenvolver clones locais valoriza o terroir e fortalece nossa identidade vitivinícola", afirma.
O pesquisador Léo Carson, da Embrapa, destaca que o Seleclone não apenas cria novas opções de cultivares. Mas também realiza uma rigorosa seleção sanitária. "Buscamos disponibilizar clones livres dos principais vírus da videira, garantindo ao produtor material de qualidade e adaptado ao nosso ambiente", explica.
Como funciona o Projeto Seleclone - O programa realiza prospecção, avaliação, validação e registro de novos clones - um ciclo que pode levar de sete a dez anos. O trabalho envolve tanto clones introduzidos da Europa quanto mutações naturais observadas em vinhedos antigos da região, muitas delas identificadas pelos próprios produtores. *Henrique Rodarte/AgroEmCampo.
Entre as descobertas já obtidas está a Chardonnay Rosé, uma mutação de baga rosada surgida no distrito de Tuiuty, em Bento Gonçalves. Outros 14 clones passam pela fase final de validação. E a equipe já encaminhou dois, de Cabernet Franc e Tannat, ao Registro Nacional de Cultivares (RNC). A previsão indica que o setor lançará pelo menos seis novos clones até 2030, incluindo variedades emblemáticas como Cabernet Sauvignon.
A iniciativa conta com o apoio de associações ligadas às Indicações Geográficas (IG) da Serra Gaúcha, como Aprovale, Apromontes, Aprobelo e Asprovinho, reforçando o compromisso regional com a pesquisa e a inovação.
Com o avanço do Seleclone, a vitivinicultura brasileira ganha mais autonomia genética e reduz custos com importações. Além de fortalecer sua identidade no competitivo mercado internacional de vinhos finos.
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