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Determinação das necessidades de frio invernal e quebra da dormência em Pera Williams Precoz (Pyrus communis L.) no Norte do Uruguai

A área total de pera atinge 597 hectares, dos quais 89,4% correspondem à cultivar Williams. ). Em contraste, a cultivar Williams Precoz ocupou apenas 11 hectares na safra de 2016


Resumo - Este estudo quantificou as necessidades de frio invernal da cultivar de pera 'Williams Precoz' em Pintado, Artigas, Uruguai, utilizando três métodos de medição: Horas de Frio (?7,2°C), Horas de Frio (?10°C) e Porções de Frio (Modelo Dinâmico). A quebra completa da dormência das gemas vegetativas e frutíferas (>50% de brotação) foi registrada em 12 de julho com 324 horas de frio (?7,2°C), 536 horas de frio (?10°C) e 25 porções de frio.

Observou-se que as gemas frutíferas completam a dormência antes das gemas vegetativas. As médias históricas para a região excedem as necessidades mínimas de frio da cultivar na maioria dos anos. Recomenda-se o uso de agentes indutores de brotação devido à variabilidade interanual na disponibilidade de frio.  Palavras-chave: Pyrus communis L.; Cultivar; Necessidades de frio invernal; Adaptação.

Introdução - A fruticultura em clima temperado no Uruguai enfrenta uma tensão constante entre a disponibilidade de frio invernal e as necessidades de dormência das espécies e cultivares. Nesse contexto, a expansão do cultivo de pera para áreas geograficamente distantes dos centros tradicionais de cultivo levanta importantes questões ecofisiológicas. A cultivar de pera Williams Precoz (Pyrus communis L.) surge como uma alternativa viável no norte do país, especificamente na região de Pintado, no departamento de Artigas, uma região cujo regime de temperaturas invernais difere significativamente do sul do Uruguai.

A produção de pera no Uruguai tem se concentrado historicamente nos departamentos de Canelones, Montevidéu, San José e Colonia, onde as temperaturas invernais garantem, na maioria dos anos, horas de frio suficientes para atender às necessidades das cultivares tradicionais. A área total dedicada aos pomares de pera atinge 597 hectares, dos quais 89,4% correspondem à cultivar Williams (Bon Chrétien). Em contraste, a cultivar Williams Precoz ocupou apenas 11 hectares na safra de 2016, segundo o levantamento de frutíferas de caroço realizado pelo DIEA-MGAP.

A cultivar 'Williams Precoz', também conhecida como 'Early Bon Chrétien', originou-se de uma mutação espontânea da cultivar Williams detectada na região de Ceres, na África do Sul. Sua introdução no mercado uruguaio ocorreu em 1989, quando o CIAAB (atual INIA, Estação Experimental de Las Brujas) lançou oficialmente a variedade.

Suas características morfológicas, tanto da planta quanto do fruto, são semelhantes às da cultivar original, mas sua fenologia é significativamente mais precoce: a floração em Pintado ocorre de 15 a 20 dias antes do que em Williams (entre 10 e 15 de setembro), e a colheita é de 35 a 40 dias antes do que na região sul, concentrando-se entre 15 e 25 de dezembro.

Do ponto de vista agroclimático, a área de Pintado é classificada como Cfa, segundo a classificação climática de Köppen: um clima subtropical úmido com características continentais típicas da altitude. Esse perfil térmico implica invernos mais frios do que no litoral atlântico uruguaio (mínimas absolutas registradas de -5,2 °C em julho), mas com um acúmulo potencialmente limitado de frio invernal em comparação com as áreas frutíferas tradicionais do sul. A viabilidade produtiva da pera 'Williams Precoz' nessa região depende, em grande parte, dos invernos locais proporcionarem o frio necessário para a quebra bem-sucedida da dormência. Compreender esse limiar com precisão experimental é a principal justificativa deste estudo.

Figura 1 - À esquerda, é mostrada a marcação de galhos no campo; à direita, sua manutenção na estufa, desde o corte até a contagem dos brotos

Objetivo - O objetivo principal foi quantificar as necessidades de frio invernal para a quebra da dormência na cultivar de pera Williams Precoz ('Early Bon Chrétien') em condições de campo na região de Pintado, em Artigas, Uruguai. Com base nesse limiar experimental, o estudo visou avaliar a adequação do regime de temperatura invernal local, comparando os dados do ensaio com registros históricos da região, e determinar as diferenças nas necessidades de frio entre gemas vegetativas e frutíferas (reprodutivas).

3.Materiais e métodos - 3.1. Local experimental e material vegetal - As plantas da cultivar Williams Precoz utilizadas no ensaio foram enxertadas em porta-enxerto de Pyrus calleryana e plantadas em campo em junho de 2017. O espaçamento adotado foi de 5 m × 2,5 m, equivalente a uma densidade de 800 plantas por hectare. A cultivar 'Forelle' foi utilizada como polinizadora. O local experimental está situado nas coordenadas 30°26'48,96" S, 56°26'35,51" O, a uma altitude de 111 metros acima do nível do mar, na cidade de Pintado, Departamento de Artigas.

Metodologia para Extração e Avaliação de Brotos - No outono de 2018, 25 brotos foram selecionados e marcados para o experimento, com comprimento médio de 30 cm e diâmetro médio de 6 cm. Em cada data de extração, cinco brotos foram cortados aleatoriamente da floresta e numerados de um a cinco. As datas de corte em campo foram: 22 de junho, 2 de julho, 12 de julho, 22 de julho e 4 de agosto, respectivamente.

Os brotos coletados em cada data foram colocados em recipientes (vasos) com água dentro de uma estufa aquecida, onde a temperatura foi mantida entre 11°C à noite e 25°C durante o dia, sob um regime de 10 horas de luz natural. A água foi renovada e um corte basal foi feito a cada 48 horas para preservar a condutividade hidráulica dos tecidos. A avaliação foi realizada pela contagem dos brotos, tanto vegetativos quanto frutíferos, por estaca, 21 dias após a data do corte. Uma taxa de brotação de 50% foi estabelecida como o limiar para a superação da endodormência.

Modelos para Quantificação do Acúmulo de Frio Invernal - O acúmulo de frio invernal foi calculado utilizando três métodos complementares, todos amplamente utilizados na fruticultura de clima temperado:

Modelo de Horas de Frio ? 7,2°C (Weinberger, 1950): contabiliza o número total de horas com temperaturas iguais ou inferiores a 7,2°C desde o início da dormência. Este é o modelo mais utilizado mundialmente.

Modelo de Horas de Frio ? 10°C: eleva o limiar de temperatura para 10°C, o que é mais apropriado para regiões com invernos amenos, onde as temperaturas raramente caem abaixo dos valores clássicos do modelo anterior.

Modelo Dinâmico (Erez et al., 1990): expressa o acúmulo de frio em unidades chamadas porções de frio. Ao contrário dos modelos horários, o Modelo Dinâmico considera o efeito bidirecional das temperaturas: baixas temperaturas promovem o acúmulo, enquanto certas faixas de temperatura mais altas podem reverter parcialmente o processo. Isso o torna o método mais adequado para áreas com invernos irregulares ou amenos.

O período de referência para o cálculo foi de 1º de maio a 30 de setembro de cada ano. Os dados históricos de frio invernal utilizados para validação vieram da estação meteorológica do INMET em Quaraí, RS, Brasil, localizada a aproximadamente 8 km ao norte do local experimental.

Figura 2 - Acima (esquerda): gema vegetativa de inverno, (direita): gema frutífera de inverno.

Abaixo: brotação da gema vegetativa (esquerda) e da gema frutífera (direita), marcando o fim da dormência para este experimento

Figura 3 - Avaliação de brotos vegetativos e frutíferos 21 dias após o corte. 1) corte em 22/06; 2) corte em 02/07; e 3) corte em 12/07

 
Tabela 1. A tabela mostra a data de corte em que as gemas - vegetativas, frutíferas e totais - ultrapassaram 50% de brotação, encerrando o período de dormência. Ela também permite uma análise da relação dessas gemas com os diferentes métodos de acúmulo de frio invernal

 

  1. Resultados - 4.1. Fim da dormência das gemas - A análise das cinco datas de colheita permitiu o estabelecimento preciso do limiar de quebra de dormência para a cultivar de pera 'Williams Precoz'. Considerando todas as gemas (vegetativas e frutíferas), 50% da quebra de gemas foi excedida na colheita de 12 de julho, com uma quebra total de 51,6%. Nessa data, o acúmulo de frio invernal registrado desde 1º de maio totalizou: 324 horas de frio (?7,2°C), ? 536 horas de frio (?10°C), 25 porções de frio (Modelo Dinâmico)

Esses valores representam o limite mínimo de requisitos de frio invernal para que a cultivar complete a endodormência e apresente comportamento produtivo normal.

Análise diferencial por tipo de gema - Uma descoberta fundamental do experimento é a diferença na necessidade de frio invernal entre gemas vegetativas e frutíferas (reprodutivas). Esse resultado tem implicações práticas relevantes para o planejamento do manejo do pomar e o uso de indutores de brotação.

As gemas frutíferas atingiram o limiar de 50% de brotação em 2 de julho, data em que apenas 271 horas de frio (?7,2°C), 426 horas de frio (?10°C) e 19 frações de frio haviam sido acumuladas, de acordo com o Modelo Dinâmico. Em outras palavras, as gemas reprodutivas encerram o período de dormência mais cedo e com menores necessidades térmicas.

Em contraste, as gemas vegetativas necessitaram de uma acumulação significativamente maior de frio invernal para atingir o mesmo limiar: só o alcançaram em 22 de julho, com 364 horas de frio (?7,2 °C), 611 horas de frio (?10 °C) e 28 horas de frio.

Tabela 2. Necessidades de frio invernal diferenciadas por tipo de gema na pereira 'Williams Precoz'. Limiar de 50% de brotação. Pintado, Artigas, Uruguai. 2018

Gráfico 1. Como mostra a figura, 12 de julho marca o ponto em que a brotação ultrapassou 50% na formação de gemas da cultivar de pera 'Williams Precoz', sinalizando o fim da dormência, sob as condições de frio invernal registadas na zona de Pintado, em Artigas

Dados históricos de acumulação de frio para a região - Para avaliar a adequação do regime de temperatura invernal local em relação às necessidades de frio determinadas para o ensaio, os resultados foram comparados com dados históricos da estação meteorológica do INMET em Quaraí, RS (Brasil). A série abrange oito anos (2017-2024) e permite caracterizar a variabilidade interanual da disponibilidade de frio invernal na região.

A análise dos dados históricos revela que a acumulação média de frio invernal na região (481 horas de frio ?7,2 °C, 852 horas de frio ?10 °C, 37 frações de frio) excede significativamente os requisitos mínimos determinados para a variedade de pera 'Williams Precoz'.

Contudo, a variabilidade interanual é significativa: o ano de 2017 registou apenas 268 horas de frio (?7,2 °C) e 22 frações de frio, o que foi insuficiente segundo o modelo clássico de limiar de 7,2 °C. Nesse ano, a cultura teria dependido criticamente da utilização de indutores de brotação para alcançar uma quebra uniforme da dormência. Por outro lado, anos como 2021 (605 horas de frio ?7,2 °C) ou 2018 (571 horas de frio ?7,2 °C) representam condições muito favoráveis ??à quebra espontânea da dormência.

Tabela 3. Acúmulo de frio invernal, de acordo com os modelos de medição utilizados, de 1º de maio a 30 de setembro de cada ano. Estação Meteorológica do INMET, Quaraí, RS, Brasil

Conclusões - Este estudo fornece a primeira quantificação experimental documentada das necessidades de frio invernal para a quebra da dormência na cultivar de pera 'Williams Precoz' em condições de campo no norte do Uruguai. Os resultados obtidos permitem afirmar que esta cultivar apresenta necessidades moderadas de frio invernal: 324 HF (?7,2°C), 536 HF (?10°C) e 25 porções de frio para o número total de gemas, o que é compatível com o regime de temperatura invernal da região de Pintado, Artigas, na maioria das safras. A comparação com dados históricos da estação do INMET em Quaraí confirma que a região apresenta, em média, um excedente de temperatura invernal em relação às necessidades de frio da cultivar. No entanto, a variabilidade interanual observada, especialmente em anos com invernos amenos, como 2017 e 2023, sublinha a necessidade de implementar estratégias de gestão que complementem o fornecimento natural de frio. A este respeito, a aplicação de 5% de óleo mineral durante a primeira semana de agosto apresenta-se como uma ferramenta comprovada e eficaz para homogeneizar a quebra da dormência e estabilizar a resposta produtiva do pomar.

Uma descoberta de particular relevância agronómica é a assincronia nas necessidades de frio entre as gemas vegetativas e de frutificação: as gemas reprodutivas completam a dormência mais cedo (2 de julho, 271 HF ?7,2°C) do que as gemas vegetativas (22 de julho, 364 HF ?7,2°C). Esta diferença pode levar, em invernos com acumulação insuficiente de frio, a uma brotação tardia, causando formação irregular de gemas, problemas de tamanho e uma colheita mais tardia do que o habitual. Portanto, o uso de agentes indutores de brotação e o monitoramento fenológico são ferramentas essenciais para o manejo da pereira 'Williams Precoz' em áreas com invernos variáveis.

Por fim, as observações de campo mostram floração estável, produtividade consistente e frutos de boa qualidade comercial, validando os resultados dos ensaios e apoiando a expansão do cultivo da pereira 'Williams Precoz' para outras regiões com regimes de temperatura de inverno semelhantes ao norte do Uruguai. As conclusões aqui apresentadas são preliminares e requerem validação em pelo menos mais duas safras, o que fortalecerá a base científica para futuras recomendações técnicas. *Júlio Pisano - 1. Técnico em Gestão e Administração de Empresas Agropecuárias - Consultor técnico em fruticultura - [email protected]

Figura 4. A fotografia à esquerda mostra uma planta da cultivar 'Williams Precoz' em plena floração, 15 meses após o plantio. No centro e à direita, é evidente o nível de produtividade e a qualidade dos frutos

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