Técnica criada por produtores está mudando o cultivo do maracujá no Brasil

Preço do maracujá cai mais da metade e produtores do interior de SP adaptam manejo

17/04/2026 19:43
Técnica criada por produtores está mudando o cultivo do maracujá no Brasil

Quem planta maracujá conhece bem a equação cruel da fruticultura: você investe meses de trabalho, e o mercado decide quanto vai pagar. Em 2026, essa conta ficou ainda mais difícil. O preço despencou, o clima atrapalhou a formação dos frutos e, mesmo assim, há produtores que encontraram saída por conta própria, literalmente na ponta do broto. 

Quando o preço cai pela metade, é hora de adaptar - Em Gália, no centro-oeste paulista, José Roberto Martineli cuida de três hectares com 2,5 mil pés de maracujá. A caixa de aproximadamente 20 quilos, que chegou a R$ 100 no final do ano passado, agora sai por R$ 40. Uma queda de 60% que não veio sozinha.

As temperaturas mais baixas registradas em 2025 comprometeram a formação da fruta, reduzindo qualidade e volume. Para muitos produtores, esse tipo de combinação seria razão suficiente para repensar a cultura. Para Martineli, foi razão suficiente para aperfeiçoar o que já fazia.

 

O método que o produtor desenvolveu ao longo dos anos foca em aumentar a florada e concentrar a produção em dezembro, quando o mercado paga melhor. A lógica está no número de brotos conduzidos na parreira: mais brotos geram mais guias, mais guias resultam em mais frutos no período certo. A meta é chegar a duas mil caixas até o fim do ano.

A técnica não está em nenhum manual acadêmico. Ela nasceu da observação, do erro e do acerto dentro da própria lavoura, o que define boa parte do conhecimento aplicado na agricultura familiar brasileira.

A 40 quilômetros dali, outra família e o mesmo compromisso - Em Alvinlândia, município vizinho, a família de Viviane Pinheiro da Cruz Pereira trabalha um hectare com 830 pés de maracujá. Por lá, a polinização manual é o detalhe que faz toda a diferença, processo que exige presença constante e atenção ao ciclo das flores.

A projeção para 2026 é ambiciosa: a família espera colher três caixas por pé, o que representa uma estimativa de cerca de 35 mil quilos. Para uma propriedade de um hectare conduzida em família, esse volume só se sustenta com rotina rigorosa e presença diária no campo, incluindo sábados e domingos.

O que esses produtores nos ensinam? - A história de Martineli e da família Pereira funciona como exemplo de como a agricultura familiar responde a pressões que fogem do seu controle. Quando o preço cai e o clima falha, o que resta ao produtor é dominar aquilo que está ao seu alcance: o manejo, o tempo de poda, a condução da planta, a polinização feita à mão.

Nenhuma dessas escolhas resolve o problema estrutural da oscilação de preços. Mas elas fazem a diferença entre fechar a safra no vermelho ou chegar a dezembro com produção suficiente para aproveitar o melhor momento do mercado. *Matéria do AgroEmCampo/Giovanna Costa - 16/04/2026.