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Antes que a geada chegue: UDESC desenvolve tecnologia inovadora para fazer a planta passar frio

Através de sensores de temperatura instalados na região do cordão das videiras, o sistema de nebulização é acionado automaticamente quando a temperatura ultrapassa 10°C


Sistema de aspersão para evitar danos causados por geadas em São Joaquim/SC

Nova estratégia utiliza nebulização para retardar a brotação de videiras e reduzir a exposição das plantas às geadas de primavera - E se fosse possível retardar a brotação da planta para que ela atravesse o período de maior risco de geadas ainda em um estádio menos sensível?
Essa é a proposta de uma nova tecnologia desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Fruticultura do Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV) da UDESC, em São Joaquim, SC, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC).
A tecnologia utiliza a nebulização de água como ferramenta de manejo do desenvolvimento das plantas, buscando reduzir o acúmulo térmico nas gemas de videiras para retardar o início da brotação. A ideia é simples: se os tecidos jovens são mais vulneráveis ao frio, atrasar seu aparecimento pode reduzir a possibilidade de que uma geada encontre a planta em um estádio altamente sensível.
O trabalho está sendo realizado em São Joaquim - SC, na Vinícola Villa Francioni em videiras 'Chardonnay' e os resultados encontrados são bastante promissores. Foi observado que o uso da nebulização retarda o início da brotação em aproximadamente 15 dias em comparação às plantas sem a proteção (Figura 1 - ver gráfico).

Uma estratégia que começa antes da brotação A nova proposta representa uma mudança na forma de pensar o manejo das geadas, pois, em vez de agir somente quando a temperatura já está caindo, o produtor pode utilizar o conhecimento sobre a fenologia da planta para antecipar o risco e modificar o momento em que os tecidos mais sensíveis estarão expostos.
Essa tecnologia vem sendo testada e validada desde 2022, com apoio da FAPESC, e já reúne quatro anos de estudos voltados ao desenvolvimento e à validação da estratégia. A ideia é que com a nebulização, a planta mantenha sua temperatura próxima a basal de 10°C, não acumulando graus-dia, "passando frio" e impedindo a planta de brotar antes do término do período crítico para ocorrência de geadas na primavera.
Através de sensores de temperatura instalados na região do cordão das videiras, o sistema de nebulização é acionado automaticamente quando a temperatura ultrapassa 10 °C. A partir do acionamento, os nebulizadores operam em sistema pulsante, com ciclos de acionamento e interrupção programados, que se repetem enquanto a condição térmica estabelecida para o funcionamento do sistema for mantida. Esse manejo tem como objetivo reduzir o acúmulo térmico no entorno das gemas das plantas e, consequentemente, retardar o avanço da brotação (Figura 2A).

Para isso, o acompanhamento da previsão meteorológica deve estar associado ao monitoramento das condições dentro da própria propriedade e ao conhecimento do estádio fenológico das plantas.
A utilização da água durante a geada, por sua vez, exige planejamento, pois é necessário garantir disponibilidade de água, capacidade de bombeamento, uniformidade de distribuição e funcionamento adequado de emissores, tubulações e sensores. A aplicação também precisa ser mantida durante o período necessário de proteção.
Um resultado interessante também que foi observado ao longo do ciclo da cultura foi que, embora a nebulização tenha retardado o início da brotação, esse atraso não se manteve na mesma proporção ao longo das demais fases fenológicas. Isso significa que as plantas submetidas ao tratamento avançaram normalmente pelo ciclo e atingiram a maturação em período próximo ao observado nas plantas sem proteção.
Esse resultado é particularmente importante do ponto de vista produtivo, pois indica que o atraso inicial da brotação não necessariamente implica em um atraso equivalente na maturação das uvas. Dessa forma, a estratégia permite retardar o início do desenvolvimento justamente durante o período de maior risco de geadas, sem necessariamente prolongar o ciclo até a colheita na mesma proporção.
Na prática, a estratégia permite que a planta "passe frio" antes de entrar nos estádios mais vulneráveis, reduzindo a coincidência entre a ocorrência das geadas e a presença de tecidos jovens.

Sistema de aspersão para atraso de brotação - Foto: Adrielen Tamiris Canossa

Sistema de aspersão para atraso de brotação em funcionamento em vinhedo Chardonnay - Foto: Adrielen Tamiris Canossa

Tecnologia desenvolvida para enfrentar um problema - As geadas de primavera estão entre os principais riscos climáticos para a fruticultura em regiões de clima frio. Em videiras, o risco aumenta após a retomada do crescimento, quando brotações e estruturas reprodutivas ficam mais suscetíveis às baixas temperaturas.
Nesse contexto, os resultados obtidos pelo Grupo de Fruticultura do CAV-UDESC apontam para uma nova possibilidade de manejo: atuar sobre o próprio desenvolvimento da planta para reduzir sua exposição ao risco e, quando necessário, utilizar a água como proteção durante a ocorrência da geada.
A tecnologia ainda deve ser avaliada considerando as diferentes condições de cada propriedade, como cultivar, histórico de geadas, disponibilidade de água, infraestrutura e custos de implantação e operação.
Mas a ideia central é clara: em regiões onde a geada pode decidir o destino de uma safra, talvez a melhor hora para começar a proteger a planta seja antes mesmo do frio chegar.

Quando a geada chega, a água pode proteger - A estratégia tradicional de proteção contra geadas, também estudada pela UDESC, envolve a aplicação de água via aspersão durante os eventos de frio, especialmente após o início da brotação, quando os tecidos jovens se tornam mais sensíveis às temperaturas negativas.
Quando aplicada de forma adequada e contínua, a água em contato com os tecidos vegetais libera calor ao congelar a planta, contribuindo para manter a temperatura das brotações próxima de 0°C, evitando que elas atinjam temperaturas negativas, que podem provocar danos e a morte dos tecidos.

Dessa forma, a formação contínua de gelo sobre as brotações funciona como uma espécie de barreira térmica, fenômeno conhecido como "efeito iglu" (Figura 1 B).

O sistema de microaspersão foi configurado para acionamento automático quando a temperatura ambiente atingisse valores iguais ou inferiores a 6 °C. Após o acionamento, os microaspersores permanecem em
funcionamento contínuo enquanto a temperatura se mantivesse dentro dessa condição, sendo desligados somente quando a temperatura ultrapassasse a temperatura estabelecida.
Só na safra 2023/24, por exemplo, foram registrados ao menos três eventos de geada durante o início do ciclo das videiras. No evento de maior impacto, ocorrido em meados de setembro, a temperatura mínima ficou abaixo dos 0°C (Figura 3 - ver gráfico).
Observou-se nas plantas sem proteção, que a mortalidade de gemas chegou a aproximadamente 70%. Já nas plantas submetidas à aplicação de água, a mortalidade permaneceu abaixo de 15%, evidenciando o potencial da aspersão como estratégia de proteção durante eventos de geada. 
Os resultados demonstram que as duas estratégias podem atuar de forma complementar e em diferentes momentos do ciclo: a nebulização pode ser utilizada antes da ocorrência da geada para retardar a brotação e reduzir a exposição dos tecidos jovens, enquanto a aspersão atua durante o evento de frio, protegendo termicamente as brotações já expostas. *Autores: Lindomar Velho de Aguiar Junior 1 , Adrielen Tamiris Canossa 1, Juliana Vignali Alves 1 , Leo Rufato.1 - 1 Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Ciências Agroveterinárias, Lages - SC. Fotos: Adrielen Tamiris Canossa - Contato: [email protected].

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